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RESPEITO » Missão de provocar Silvero Pereira leva para a ficção a realidade sobre questões que envolvem a identidade de gênero. Ator, que atua em elogiada peça com o tema, agora aborda em novela o tratamento dado aos travestis e transexuais

Publicação: 12/06/2017 04:00

Silvero Pereira sente que estreou com uma missão em A força do querer, novela das 21h da Globo: abrir caminhos para o diálogo sobre a identidade de gênero com o público. Reconhecido nos palcos principalmente pela peça BR-Trans, na qual mergulha em histórias e relatos de travestis e mulheres trans marginalizadas pela exclusão social e pelo preconceito, o ator ganhou a chance de expandir seu trabalho a partir do batalhador Nonato. Na trama, o motorista esconde um segredo: a travesti Elis Miranda, que encarna na noite ou quando está trancado no quarto onde vive. Se sustentar apenas como um artista transformista é o grande sonho de Nonato. Mas, enquanto isso não é possível, ele dá expediente na casa e na empresa de Eurico (Humberto Martins), um dos personagens mais machistas do folhetim. E foi para dar voz a esta causa que Glória Perez o chamou para o elenco de A força do querer.

“Ela me viu fazendo o espetáculo. Nem digo que foi nos 45 minutos do segundo tempo, e sim nos 15 da prorrogação. Depois que assistiu, pegou meu WhatsApp e a gente começou a conversar sobre a possibilidade de eu estar na novela. Não existia personagem para mim, Glória criou depois. Entrei pela porta da frente”, gaba-se o ator.

Na trama, Nonato foi expulso de casa pelo irmão ao ser flagrado, como Elis Miranda, se apresentando em um bar. Saiu do Ceará para o Rio de Janeiro com o sonho de impulsionar a carreira como transformista, mas precisou do emprego com Eurico para não ter de se prostituir. Só que não deve demorar até que o patrão descubra o objetivo do funcionário.

“Nonato percebe que Eurico é extremamente homofóbico e uma pessoa muito difícil. Mas gosta do patrão, porque é afetuoso e, de fato, lhe deu uma oportunidade”, diz Pereira.

ARTE

Silvero explica que a história de Ivana (Carol Duarte), sobrinha de Eurico, é completamente diferente da situação de Nonato. O motorista não quer mudar de sexo: sua porção feminina se expressa artisticamente.

“Nonato não é trans. O transformismo é como um guarda-chuva que agrega outros gêneros artísticos. Então, Elis Miranda é diferente da personagem da Ivana, que é um transgênero. Faço um contraponto com o papel da Carol”, relata. Na novela, Nonato adotou o nome Elis Miranda em homenagem às suas duas “divas” favoritas: Elis Regina e Carmen Miranda.

TRATAMENTO


Natural de Mombaça, no sertão do Ceará, Silvero criou o coletivo As travestidas em 2002, na cidade de Fortaleza, para abordar questões que lhe incomodavam no tratamento dado aos travestis e transexuais. Agora, acredita que a Elis Miranda de A força do querer contribui para que a sociedade se questione antes de qualquer condenação.

“Acho que o Brasil precisa ser mais respeitoso e compreender as diferenças. Finge ser democrático e libertário, mas é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Talvez a novela não transforme as pessoas, mas provoque. Começamos a falar um pouco mais sobre o assunto”, pontua.

Há três anos no Rio de Janeiro, trabalhando com o teatro, Silvero diz que não passava por sua cabeça fazer televisão. Apesar da experiência também no cinema, em que participou do filme ‘Serra Pelada’ (2013) e do curta ‘As Bodas do Diabo’ (2015), essa é a estreia do ator em novelas.

“É uma equipe extremamente sensível. O Humberto Martins tem se tornado um grande mestre, é a pessoa que mais me ensina nos estúdios, que me dá a mão e diz como conduzir o trabalho”, conta

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