Vida Bandida

O melhor amigo do patrão

Publicação: 31/08/2015 04:00

Para o contador daquele frigorífico de urgências era o trabalho o plano de vida. Ainda moleque, aos 9 anos, sem pai, João já juntava trocados no matadouro de galinhas do seu Agenor. Era um bico levado muito a sério, especialmente, nos finais de semana. Não passava sábado nem domingo sem o João na lida com as bichinhas gordas prontas para o abate.


E o João, vítima de paralisia infantil, foi criado na dificuldade pela mãe doméstica. O garoto viu de perto o sucesso do pastor Agenor. Um homem evangélico, severo, bem casado e pai de família. Do pequeno estabelecimento na rua de terra em bairro da Zona Norte, o pastor e empresário alcançou galpão descomunal na Região Metropolitana. E o João, deficiente, assalariado, vivia feliz com o êxito do patrão. No coração, uma única tristeza: a falta do nome do pai. Dona Clara, a mãe, dizia tratar de assunto encerrado: “Você não tem pai e pronto”.


Na outra ponta da história, era só alegria: o Agenor, a mulher Maria, e os três filhos, Pedro, Lucas e Matheus, já não tinham mais para onde enviar a dinheirama. Mansões nos Estados Unidos, contas secretas na Europa, troca de favores com este e com aquele partido. Uma farra sem rastros. Não era para menos. Na contabilidade estava o João. O João manco, homem de todas as urgências. De pegador de galinhas ao cargo de tesoureiro.


Reconhecido por todos na firma como o melhor amigo do patrão, o João vivia para a família Agenor. Tanto que até tentou o casamento. Três vezes. No entanto, não havia mulher na face da terra capaz de competir com as necessidades do Agenor. A qualquer hora do dia ou da noite, aos sábados, domingos e feriados, lá estava o João, arrastando a perna, sempre pronto para qualquer empreitada.


O administrador conhecia de A a Z toda e qualquer brecha no fisco mundial. Uma capacidade. E tudo por salário miúdo, sem qualquer participação nos lucros dos patrões. Tamanha dedicação e entrega, o João perdeu até o enterro da mãe, dona Clara. Na ocasião, o “melhor amigo do patrão” estava cuidando das contas do frigorífico e da igreja na Suíça.


Foi um baque e tanto para o João, filho único da dona Clara, não ter chegado a tempo para se despedir da mãe querida. Ainda mais depois da carta que recebeu das mãos do tio amigo: “Sua mãe pediu que eu entregasse isso pra você”. Na carta, em poucas linhas de garrancho, uma revelação: “Você é filho do Agenor, meu filho. Ele sempre soube. Mas dizia que um filho fora do casamento ia estragar a vida dele. Por isso, nunca disse nada. Perdoa a mamãe”.


Tomado de decepção, o filho de Dona Clara com o pastor salafrário não pensou duas vezes: João desviou todas as contas do Agenor no estrangeiro e, hoje, montado na grana, vive em paraíso fiscal da Escandinávia. Dono de bom coração, anônimo, João mantém meia dúzia de casas especiais para deficientes em Belo Horizonte.

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