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Ciência

Buraco negro supermassivo surpreende cientistas com “indigestão” após devorar estrela

Evento raro de ruptura de maré desafia teorias ao emitir jato de material por mais de seis anos e aumentar brilho em ondas de rádio

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Legenda da foto: Conceito artístico mostra o momento em que um buraco negro supermassivo destrói uma estrela em um evento de ruptura por maré, formando um disco de gás superaquecido e um jato de material expelido em alta velocidade
Legenda da foto: Conceito artístico mostra o momento em que um buraco negro supermassivo destrói uma estrela em um evento de ruptura por maré, formando um disco de gás superaquecido e um jato de material expelido em alta velocidade

Um buraco negro supermassivo localizado a cerca de 665 milhões de anos-luz da Terra chamou a atenção da comunidade científica ao apresentar um comportamento incomum após devorar uma estrela. Em vez de encerrar rapidamente o processo, como costuma ocorrer, o objeto continua expelindo material em alta velocidade anos depois da “refeição”.

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Cientistas classificam o fenômeno como evento de ruptura por maré, quando a força gravitacional extrema do buraco negro estica e destrói uma estrela que se aproxima demais. No entanto, a intensidade e a duração do que os pesquisadores apelidaram de “indigestão” surpreenderam até especialistas experientes.

O que aconteceu com a estrela

A estrela destruída era uma anã vermelha, com aproximadamente um décimo da massa do Sol. Ao cruzar o limite crítico de aproximação, ela foi submetida às forças de maré do buraco negro, um processo conhecido como “espaguetificação”. Nesse estágio, a estrela é alongada em um fluxo de detritos antes de ser parcialmente engolida.

Parte do material caiu em direção ao buraco negro e se aqueceu intensamente. Entretanto, outra fração não atravessou o chamado horizonte de eventos, o ponto sem retorno, e acabou sendo lançada de volta ao espaço na forma de um jato relativístico.

Jato mais intenso e duradouro do que o esperado

O que torna esse caso excepcional é o tempo de resposta do sistema. O buraco negro só começou a ejetar material dois anos após destruir a estrela. Desde então, o jato permanece ativo há seis anos, período mais longo já observado em eventos semelhantes.

Além disso, o brilho em ondas de rádio aumentou de forma exponencial. Segundo os pesquisadores, a fonte está cerca de 50 vezes mais brilhante do que quando foi descoberta. E, até o momento, não há sinais de desaceleração.

Esse comportamento indica que o processo de alimentação do buraco negro não ocorre de maneira simples ou imediata. Pelo contrário, pode envolver instabilidades magnéticas e rearranjos no disco de material ao seu redor.

O que é um evento de ruptura por maré

Eventos de ruptura por maré acontecem quando uma estrela passa perto demais de um buraco negro. A gravidade extrema cria forças desiguais entre o lado mais próximo e o mais distante da estrela, causando sua fragmentação.

Como resultado, forma-se um disco de gás superaquecido ao redor do buraco negro. Em alguns casos, esse material gera jatos relativísticos, feixes de partículas que viajam a velocidades próximas à da luz.

No entanto, nem toda ruptura de maré produz jatos tão potentes. Por isso, os cientistas consideram o episódio atual um dos mais energéticos já detectados.

Por que o fenômeno intriga os cientistas

Embora os pesquisadores suspeitem que campos magnéticos desempenhem papel central na formação do jato, ainda não há consenso sobre o mecanismo exato. Se o fenômeno fosse comum, astrônomos já teriam identificado mais eventos semelhantes.

Agora, as equipes monitoram a evolução do jato para entender quando ele atingirá o pico de intensidade. A expectativa é que o brilho aumente ainda mais antes de iniciar um declínio gradual, processo que pode durar mais de uma década.

Enquanto isso, o caso reforça a importância dos radiotelescópios na investigação de fenômenos extremos. Ao observar o universo em diferentes comprimentos de onda, os cientistas conseguem reconstruir eventos violentos que moldam galáxias inteiras.

Dessa forma, o buraco negro que aparenta sofrer uma “indigestão” não apenas desafia teorias existentes, como também oferece uma oportunidade rara de compreender, em tempo real, como esses gigantes cósmicos crescem e influenciam o ambiente ao seu redor.