x

Negócios

IA cresce no setor público, mas despreparo trava avanço da cibersegurança

Estudo indica forte adesão de servidores públicos brasileiros à inteligência artificial, mas revela carência de estrutura institucional para uso da tecnologia

Publicado

em

Brasil está entre os países com maior entusiasmo em relação à inteligência artificial no setor público

Mais de 80% dos servidores públicos brasileiros consideram a inteligência artificial eficaz no trabalho diário. O dado, do Índice de Adoção de IA no Setor Público 2026, indica que o uso da tecnologia já faz parte da rotina administrativa, ainda que de forma pouco estruturada.

O mesmo estudo mostra um contraste: o entusiasmo cresce rapidamente, mas a ausência de políticas, ferramentas e treinamento impede que esse avanço gere impacto consistente nos serviços públicos. A pesquisa foi conduzida pela Public First para o Center for Data Innovation, com patrocínio do Google, e ouviu 3.335 servidores de países como Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Índia e Japão.

Adoção cresce impulsionada por iniciativa individual

O Brasil aparece entre os países com maior abertura ao uso de inteligência artificial no setor público. Segundo o estudo, 89% dos servidores afirmam que a IA economiza tempo, enquanto 65% demonstram otimismo sobre o impacto da tecnologia. Além disso, 63% passaram a usar ferramentas de IA no último ano.

Outro dado relevante é que 67% dos brasileiros aprenderam a utilizar inteligência artificial de forma autodidata, a maior taxa entre os países analisados.

Esse cenário indica que a transformação digital avança mais por iniciativa dos próprios profissionais do que por políticas estruturadas.

Falta de suporte trava uso mais amplo

Apesar da adoção acelerada, o ambiente institucional ainda limita o uso da tecnologia. Mais de 60% dos entrevistados afirmam que não recebem ferramentas ou recursos adequados para trabalhar com IA. Cerca de um em cada quatro servidores relata que o próprio local de trabalho restringe ou dificulta o uso dessas soluções.

Segundo Rachel Wolf, CEO da Public First, o desafio vai além do interesse individual. “Muitos governos têm planos ambiciosos para o uso de IA no setor público, mas alguns estão criando melhores condições para sua aplicação no mundo real do que outros”, afirmou.

A consequência é o uso fragmentado de ferramentas externas, o que reduz o potencial de integração e escala dentro da administração pública.

Brasil avança, mas ainda fica atrás de líderes

O estudo classifica os países em três níveis de adoção. Na liderança estão Singapura, Índia e Arábia Saudita, com políticas mais consistentes e integração da IA às rotinas do governo. O Brasil aparece em um grupo intermediário, ao lado de Estados Unidos e Reino Unido, com avanços relevantes, mas ainda limitado por falhas estruturais. Alemanha, França e Japão formam o grupo mais cauteloso, com maior restrição ao uso da tecnologia.

Globalmente, 74% dos servidores começaram a utilizar inteligência artificial no último ano. Mesmo assim, apenas 18% consideram que seus governos utilizam a tecnologia de forma muito eficaz. Para Daniel Castro, do Center for Data Innovation, o desafio está na execução. “Transformar ambição em resultados com IA depende de traduzir estratégia em prática cotidiana”, disse.

Cibersegurança expõe novo gargalo

Enquanto a IA avança, a segurança digital se torna um ponto crítico no país. O tema foi debatido em encontro realizado na Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina, com participação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial e do Observatório Nacional da Indústria, ligado à Confederação Nacional da Indústria.

A principal preocupação é a escassez de profissionais qualificados para lidar com o aumento da complexidade dos ataques cibernéticos. Segundo Fabio Brodbeck, cofundador da empresa de cibersegurança OSTEC, o desafio exige uma visão integrada. “Cresce a demanda por perfis capazes de transitar por diferentes áreas da tecnologia e compreender a segurança de forma mais estratégica”, afirmou.

Hoje, o mercado demanda conhecimentos combinados em inteligência artificial, análise de dados, engenharia de redes e segurança da informação.

Computação quântica amplia pressão sobre o setor

Outro fator de preocupação é o avanço da computação quântica, que pode comprometer os sistemas atuais de criptografia.

“O tema transformará completamente os mecanismos atuais de proteção”, afirmou Brodbeck.

Esse cenário impulsiona o desenvolvimento da chamada criptografia pós-quântica, voltada à proteção de dados em um ambiente tecnológico mais avançado.

Formação e retenção ainda são desafios

A formação profissional segue como um dos principais entraves. Especialistas defendem a ampliação de conteúdos de segurança digital em cursos de tecnologia, incluindo inteligência artificial aplicada à cibersegurança, simulação de ataques e criptografia avançada.

Além disso, o país enfrenta dificuldade para reter talentos, com profissionais migrando para o exterior ou atuando remotamente para empresas internacionais.

Sem avanço na qualificação e retenção, o Brasil corre o risco de ampliar o uso de inteligência artificial no setor público sem desenvolver, na mesma velocidade, a capacidade de proteger seus sistemas e dados.