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Relógio inteligente consegue avaliar o coração? Veja o que os números realmente mostram

Relógios inteligentes monitoram frequência cardíaca e outros dados, mas não substituem exames. Entenda o que o smartwatch consegue avaliar

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Relógios inteligentes acompanham frequência cardíaca, zonas de treino e outros indicadores, mas os dados são estimativas e não substituem exames médicos
Relógios inteligentes acompanham frequência cardíaca, zonas de treino e outros indicadores, mas os dados são estimativas e não substituem exames médicos

Quem acompanha os próprios treinos por um relógio inteligente já se acostumou a conferir uma série de números depois da atividade. A frequência cardíaca subiu para quanto? O treino ficou em qual zona? Quantas calorias foram gastas? O corpo está recuperado para uma nova atividade?

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Os dispositivos também passaram a apresentar estimativas de VO₂ máximo, variabilidade da frequência cardíaca e, em alguns modelos, registros do ritmo cardíaco.

Com tantos indicadores disponíveis no pulso, surge uma questão: o que esses números conseguem dizer, de fato, sobre o coração?

Segundo a cardiologista Patrícia Tavares, coordenadora do Serviço de Cardiologia da Rede Mater Dei, os wearables podem auxiliar no acompanhamento da saúde, mas os resultados precisam ser interpretados considerando as limitações de cada tecnologia.

“Os wearables são aliados importantes da saúde, pois ajudam a acompanhar, fora do consultório, as tendências dos dados de atividade física, frequência cardíaca e sono. No entanto, a precisão varia conforme o aparelho, o algoritmo, o ajuste no pulso, o tipo de exercício e as características da pessoa. Esses números devem ser vistos como informações complementares, e não como diagnóstico”, explica.

Zona 2 depende de mais do que a idade

A zona de treinamento é uma das funções mais utilizadas por quem pratica atividade física. Os relógios dividem o exercício em diferentes faixas de frequência cardíaca para indicar a intensidade do esforço.

Para fazer esse cálculo, muitos dispositivos utilizam uma estimativa da frequência cardíaca máxima baseada em fórmulas que consideram a idade. Uma das mais conhecidas é “220 menos a idade”.

O cálculo, porém, não determina a frequência máxima de cada indivíduo. Pessoas com a mesma idade podem apresentar respostas diferentes ao exercício.

O uso de determinados medicamentos também interfere nessa relação. Betabloqueadores, por exemplo, podem reduzir a frequência cardíaca durante o esforço. Nesses casos, a frequência indicada pelo relógio pode não representar sozinha a intensidade da atividade.

A percepção de esforço pode complementar a avaliação. A escala de Borg permite classificar o nível de cansaço durante o exercício, enquanto o teste da fala utiliza a capacidade de conversar durante a atividade como referência para esforços moderados.

Para uma definição individualizada das zonas de treinamento, a médica aponta o teste cardiopulmonar de exercício, também chamado de ergoespirometria. O exame identifica os limiares ventilatórios durante o esforço e permite estabelecer faixas de treinamento de acordo com as características de cada pessoa.

VO₂ máximo do smartwatch é uma estimativa

O VO₂ máximo também aparece entre os indicadores utilizados por relógios esportivos. O parâmetro representa a quantidade máxima de oxigênio que o organismo consegue utilizar durante um esforço intenso e é usado para avaliar a aptidão cardiorrespiratória.

Nos wearables, o valor é estimado a partir de informações como frequência cardíaca e características da atividade física. A medição direta ocorre no teste cardiopulmonar de exercício, que analisa o ar inspirado e expirado durante o esforço.

Por isso, os números apresentados pelo relógio e pelo exame podem ser diferentes.

Segundo Patrícia, a aptidão cardiorrespiratória tem relação com a saúde cardiovascular, e acompanhar sua evolução pode ser útil. Nesse caso, a comparação de resultados ao longo do tempo é mais relevante do que interpretar uma única medição isoladamente.

Recuperação cardíaca também aparece no relógio

Depois de uma atividade física, alguns dispositivos calculam a frequência cardíaca de recuperação. O indicador considera a redução dos batimentos após o término do exercício.

A frequência cardíaca de repouso também pode ser acompanhada pelos aparelhos. Como os relógios fazem medições frequentes, eles permitem observar variações ao longo dos dias.

Outro dado disponível em muitos modelos é a variabilidade da frequência cardíaca (VFC). Ela corresponde às diferenças nos intervalos entre os batimentos e está relacionada à atuação do sistema nervoso autônomo.

Sono inadequado, consumo de álcool e infecções podem alterar esse indicador.

Por isso, a cardiologista recomenda observar tendências ao longo de semanas, em vez de interpretar uma alteração isolada.

Calorias gastas são calculadas pelo aparelho

O gasto energético é outro dado frequentemente apresentado pelos relógios. Para chegar ao resultado, os dispositivos utilizam algoritmos que combinam informações do usuário com dados da atividade realizada.

O número, portanto, representa uma estimativa.

A precisão dessa métrica é menor do que a de algumas outras informações registradas pelos dispositivos. Por isso, o valor apresentado não deve ser interpretado como uma medição exata do gasto energético.

Quando é necessário avaliar o metabolismo de forma específica, a calorimetria indireta pode ser utilizada para medir o gasto energético de repouso. Já o consumo de oxigênio durante o exercício pode ser analisado pelo teste cardiopulmonar.

Relógio pode registrar sinais de arritmia

Alguns modelos de smartwatch possuem sensores capazes de registrar um traçado semelhante ao eletrocardiograma e identificar sinais compatíveis com alterações do ritmo cardíaco.

Um dos objetivos desse recurso é auxiliar na identificação de episódios de fibrilação atrial, uma arritmia comum.

O registro feito pelo relógio, porém, utiliza uma única derivação. Já o eletrocardiograma convencional utiliza 12 derivações para avaliar a atividade elétrica do coração.

Assim, o registro do dispositivo pode fornecer uma informação para investigação, mas não substitui a avaliação médica nem os exames convencionais.

O que o relógio não consegue diagnosticar?

O smartwatch não substitui exames usados para investigar doenças cardiovasculares.

Um dos principais limites está na avaliação de sintomas. Dor no peito, falta de ar, palpitações ou desmaio durante a atividade física precisam ser avaliados por um profissional, independentemente dos números registrados pelo dispositivo.

“O dispositivo pode levantar uma dúvida, mas não confirma a causa”, explica Patrícia.

Um registro normal também não exclui uma doença cardíaca. O relógio não realiza uma investigação completa do coração e não deve ser utilizado para descartar a necessidade de atendimento diante de sintomas.

Quais exames podem complementar os dados do relógio?

A investigação depende dos sintomas e da suspeita clínica.

O eletrocardiograma registra a atividade elétrica do coração em repouso. O Holter permite acompanhar o ritmo cardíaco durante um período prolongado e pode identificar alterações que não aparecem durante uma consulta.

Já o teste ergométrico avalia a resposta cardiovascular ao exercício, enquanto o ecocardiograma permite analisar a estrutura e o funcionamento do coração.

O MAPA acompanha a pressão arterial durante 24 horas. Para avaliação do desempenho durante o exercício, o teste cardiopulmonar de exercício analisa parâmetros como consumo de oxigênio, produção de gás carbônico e ventilação.

Na Rede Mater Dei, o serviço de Medicina do Esporte também oferece um check-up esportivo que reúne avaliação de cardiologia do esporte, eletrocardiograma, teste cardiopulmonar de exercício e calorimetria indireta.

Relógio funciona como acompanhamento, não como diagnóstico

Os dados registrados pelos wearables podem ajudar a acompanhar frequência cardíaca, atividade física, sono e recuperação. A comparação de resultados ao longo do tempo também pode fornecer informações para serem apresentadas durante uma consulta.

A interpretação, porém, depende do contexto individual e, quando necessário, de exames específicos.

“A questão não é perseguir um número perfeito. É construir bons hábitos de forma sustentável e controlar fatores de risco com avaliação profissional quando necessário”, afirma a cardiologista.